quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Noir Universitário - Parte 4

Quinta-feira, 21 de maio. Como havia combinado, encontrei o Manué no hoje extinto RU. Ele me trazia notícias inquietantes. Não havia nenhuma Minerva cadastrada no arquivo de alunos, nem em Nutrição nem em curso algum. Em compensação, a feiticeira celta aparecia: Morgana Magalhães, acadêmica do primeiro ano de nutrição. O endereço e o telefone conferiam com o que ela tinha me passado. Alguma coisa não cheirava bem nessa história!
No quarto de Minerva, no dia anterior, eu havia encontrado uma agenda onde constavam telefones, sobretudo de rapazes. A maioria pertencia aos cursos de agronomia e veterinária. Também encontrei algumas fotos. Reparei que não eram fotos reveladas, mas impressas em papel comum, o que me fez pensar que eram de uma máquina digital. As fotos continham datas recentes, de um mês ou um mês e meio atrás. Com muita insistência, e algum suborno – nesse caso algumas revistas em quadrinho antigas – convenci o Manué a me deixar acessar, após o horário de serviço, o arquivo de fotos dos alunos, no Lyceum, sistema de controle da universidade. Ali pude comparar as fotos que eu tinha e eleger alguns suspeitos, dois para ser mais preciso. Os nomes das fotos conferiam com alguns telefones da agenda.
Nas paredes da universidade fiquei sabendo que haveria uma festa no sábado, em uma república do CEDETEG. Eu teria dois dias para compor o personagem do meu disfarce, se quisesse encontrar alguma informação.

Sábado, 23 de Maio. Eu tinha faltado a aulas importantes na quinta e na sexta para melhor me preparar. Mas agora pensava estar pronto. Não conhecia ninguém que fazia curso de veterinária ou agronomia, porém a fama desse pessoal era bastante divulgada. Para nós, dos cursos de Humanas, eram os temíveis agroboys, criaturas lendárias cujo estereotipo era difundido nos mais remotos cantos. Baseando-me nessa fama construí o meu disfarce.
Passei os dois dias anteriores decorando o nome de pelo menos 25 duplas sertanejas atuais, e seus respectivos únicos sucessos. Também me mantive informado sobre diferentes raças bovinas, sobre a cultura do cereal da estação, sobre os carros mais populares do momento. O outro assunto pertinente eram as mulheres, mas sobre isso eu sempre estava informado, Para encerrar, decorei e ensaiei a interpretação de pelo menos quatro anedotas envolvendo o ambiente campeiro, duas envolvendo o proclamado sexo frágil (bem picantes), e mais duas racistas, caso a ocasião pedisse.
Na sexta feira compus minha indumentária: com um amigo consegui uma cinta com fivela bem grande, onde apareciam algumas colinas e um peão correndo atrás de um boizinho. As botas e o chapéu de aba bem larga, cujas laterais se retorciam para cima, eu tive que alugar em uma loja country, onde assinei uma promissória que depois repassaria a Morgana. Treinei um sotaque que misturava alguma coisa do interior de São Paulo e Mato Grosso do Sul, falando sempre o os “R’s” bem puxados.
Da minha convivência universitária eu tinha a certeza de três coisas: 1) os calouros de um curso raramente conhecem alguém do quarto ano; 2) os formandos de um curso raramente se lembram de alguém dos outros anos. 3) nas festas universitárias se formam patotas sempre classificadas por ano de graduação. Dessa maneira, na festa, eu seria calouro ou formando, de veterinária ou agronomia, conforme a ocasião pedisse. Decorei perguntas comprometedoras para inquirir meus alvos quando os encontrasse.
Curiosamente as coisas não ocorreram como planejei. As 23:30 cheguei na republica determinada, apresentei o ingresso caro, que também ficaria por conta da minha cliente. A festa prometia cerveja grátis a noite toda, porém eu havia me preparado com algumas doses de Jamel com Fanta, para poder atuar de forma descontraída. Logo na entrada estranhei o fato de eu ser a única pessoa de chapéu e camisa xadrez, fato que atraia bastante a atenção para a minha pessoa. A republica era uma casa de madeira no fundo de um grande terreno, havia vários grupos de pessoas formando rodinhas, uma pickup com um som bem alto e carregada de barris de chope era o centro da atenção. Na varanda da casa, alguns acadêmicos se divertiam arremessando calouros dentro de um freezer cheio de gelo. Tocava um Funk!
Me aproximei dos grupos, todos me recebiam com uma enorme euforia, o que eu não entendi direito. A Jamel produzira em mim um ar de descontração que me permitia me integrar facilmente. Sempre que o assunto masculino se encaminhava para o quesito mulheres eu dava um jeito de emendar: - Mas por onde anda a Minerva, aquela gostosa? – Algumas vezes obtive respostas interessantes como: - Pois é, realmente não vejo ela a algum tempo. Isso significava que a moça realmente freqüentava tais ambientes.
Quase no fim da noite, com o intelecto já avariado pela cerveja, me encontrei junto a um grupo onde reconheci um dos meus suspeitos, Miguel, acadêmico do terceiro ano de agronomia. Ele estava em uma das fotos com Minerva. Naquela hora o meu pretenso sotaque paulista já estava bastante desenvolvido. Eu terminava quase todas as frases com um grito estridente: Iiiiiiiiiiiihhhaaaaa!!! O que não deixava de causar divertimento entre meus interlocutores. Além disso, de repente surgiam em meu vocabulário, do nada, expressões multiregionais, como Ô trem bão!, Bah Tchê, e até Cabra da Peste!.
Mas em meio a esse show de interpretação eu ainda pude mandar a pergunta programada sobre Minerva, e ela gerou um efeito interessante. Miguel fechou a cara imediatamente, se afastou da roda e começou a cochichar algo com outro cara que eu não reconheci. Logo se afastou rapidamente. Em meio aos humores da bebida resolvi segui-lo, e foi quando algo totalmente inesperado aconteceu: enquanto eu perseguia Miguel, ao lado de uma das paredes da casa de madeira, uma figura me chamou nas sombras – Ei detetive, creio que posso ajudá-lo.
Quando eu me virei vi uma alta mulher quase encoberta pelas sombras. Trajava uma capa que não me permitia vislumbrar suas formas. Os cabelos loiros desgrenhados pelo vento guarapuavano e a sombra não permitiam que eu enxergasse seu rosto, apenas o brilho dos seus olhos.
Antes que eu pudesse me aproximar ela falou rapidamente: - Eu sei o que você procura. Encontre o Japonês que conserta binóculos e encontrará a resposta. – Logo em seguida desapareceu nas sombras deixando um rastro de perfume. Antes que eu pudesse persegui-la notei a presença de Miguel do meu lado. O soco que ele me deu em seguida foi o suficiente para me tirar os sentidos por alguns minutos. Quando dei por mim, na festa só havia o resto da turminha da maconha. Me arrastei lentamente para a saída, desajeitadamente formulando quais seriam as próximas ações necessárias. Muitas perguntas pairavam na minha cabeça: Porque Miguel me bateu? Quem era a figura das sombras? Como me conhecia? Mas acima de tudo: Quem seria o misterioso Japonês que conserta binóculos?

(Continua...)

9 comentários:

layuny disse...

Nãoooooo!
o "japoneis" que concerta binóculos!? aquela figura lendária realmente existirá?

Atualize-se sobre os padrões agroboys da estação...

Mauricio Toczek disse...

Essa história promete.

Michele Matos disse...

Noir Universitário - O livro.
Sim, essa história promete!
Uma semana para a parte 5? Preciso muito saber quem é o japoneis.
Pobre cliente, lá se vai o preço de um binóculo na conta dela.

fix me disse...

hahaha isso! Deixe o Señor Vincent Crudo na prioridade em caso de filmagens! haha

E esse mundo pós moderno não conserva nem mais estereótipos, que pouca vergonha hein!

abraçoo

Paulinha Fernandes disse...

Japonês que conserta binóculos?! Realmente, essa história promete...
"Também me mantive informado sobre diferentes raças bovinas, sobre a cultura do cereal da estação, sobre os carros mais populares do momento. O outro assunto pertinente eram as mulheres, mas sobre isso eu sempre estava informado" --> só preciso comentar o tamanho do preconceito dessa parte, rsrs, e o quanto vc ficou 'se achando' ali no final, heim?! hehehe

disse...

Não vai mais contar a histórinha pra nós??

fix me disse...

termina aí Xico, pelamor!! hahah

Michele Matos disse...

Duvido que continua...

Paula de Assis Fernandes disse...

também duvido, Michele! Aposto que é o maior migué! rsrs